— Capítulo um —
It Never Ends
24 de Dezembro, 2009.Um coral infantil entoava cânticos natalinos para um público considerável ao lado de uma modesta capela com uma coroa ornamental de flores suspensa em sua porta encarquilhada, sensibilizando as mães que assistiam a apresentação. As árvores do povoado de Ottery St. Catchpole tinham suas ramagens sacudidas por uma súbita brisa, todas elas enfeitadas do tronco até a copa pelos festivos moradores. Embora as catedrais e bares estivessem lotados de atrações, nenhum deles beirava o ambiente da Toca.
A Toca era uma residência ímpar. Seus andares eram tortuosos e desafiavam as leis da física e seus terrenos eram ocupados por galinhas castanhas e gordas e seres que mais pareciam batatas ambulantes, pragas de jardins se escondendo dos habitantes. Esta era a visão de um casal com seus três filhos, dois deles garotos que apostavam corrida até a mesa de jantar posta do lado de fora da casa, para assim melhor acomodar os convidados, e uma sonolenta ruiva nos braços da mãe.
Harry Potter e sua esposa, Gina, se encaminharam ao núcleo das comemorações, onde sua sobrinha, Rosa Weasley, aparentava estar desligada do mundo, seus lábios se mexendo com semelhante rapidez em que seus olhos captavam as linhas de um exemplar intitulado
Os contos de Beedle, o Bardo e Alvo e Tiago cumprimentavam seus avós, Arthur e Molly, a última pondo as últimas travessas da ceia e sendo auxiliada por Victoire e Dominique, cujos pais, Gui e Fleur, passeavam pelos jardins. Teddy Lupin, afilhado de Harry, não conseguia olhar para outra direção que não fosse a de Victoire, e o pequeno Hugo perguntava para a irmã o que ela estava lendo.
Harry Potter agora tinha uma família. Mas ele nunca foi, de fato, sem família.
— Achei que não vinham mais!
Eram Ronald e Hermione Weasley, seus melhores amigos, sorrindo enquanto saudavam o casal.
— Não perderíamos por nada — Defendeu-se Harry. — Uma senhora perdeu seus óculos e denunciou aquele fugitivo que procurávamos semana passada, mas era apenas um peru enfeitiçado. Não podemos negar que a estatura era a mesma...
Eles riram e foram convidados por Molly para sentarem, e logo estavam se servindo. Rosa cochichava a respeito de três irmãos, uma ponte e um trato com a Morte com Alvo e Tiago, e Rony os interrompeu, com graça:
— Relíquias da Morte? Ah, qual é, baboseira... Mione, conte-lhes da Cinderela e de sua jornada totalmente baseada em fatos reais!
Aqueles que conheciam o conto trouxa gargalharam, não foi o caso de Victoire, mas Teddy adorou explicar a piada para ela.
Após terminarem a refeição, todos estavam satisfeitos e ouviam um especial de Natal com Celestina Warbeck no rádio de Molly, as crianças brincando com um gnomo atordoado e os pais combinando de irem ao próximo jogo de Quadribol da Inglaterra. Tudo ia bem...
4 de Agosto, 2017.— Como ontem verificamos parte das celas de nosso setor, só faremos uma pequena ronda às seis horas e depois cumpriremos nosso turno com as etapas rotineiras — disse o moço, fazendo uma pausa ao notar que sua amiga não prestava muita atenção. — Sarah? Ainda está entre nós?
Ela estava absorta em seus pensamentos na altura em que se viu obrigada a voltar para a realidade, vendo seu amigo sorrir. Desde sua chegada em Azkaban que ele repassava suas tarefas, como se estivesse ansioso para terminá-las. Com um sorriso, respondeu:
— Estou, Jonathan. Só cansada por conta do trabalho. Você não?
O rosto descontraído de Jonathan se desfez, cedendo vaga para uma expressão solene. A obsessão dele pelo trabalho era notável desde seu fardamento completo e impecável até seu comportamento pomposo. Possuía olhos negros e cabelos demasiadamente curtos e parcos ao redor das têmporas, apesar de sua juventude.
— Claro que não! É uma grande oportunidade estar aqui, e estamos numa ótima vitrine! Com sorte, nossos superiores reconhecerão nossos esforços e alcançaremos postos elevados! Lembre-se sempre do senhor...
— ... Thomas Chant, que iniciou sua carreira como zelador nesta entediante prisão e atualmente tem influência no Ministério da Magia, idealizando inúmeros projetos na Confederação Internacional de Bruxos — completou Sarah, que conhecia o discurso, com um suspiro infeliz.
Desconsiderando a pouca iluminação, Sarah pôde constatar que Jonathan corou ao término de sua fala. Desconcertado, murmurou:
— Gosto de ter referências...
Temendo desentendimentos, Sarah quis mudar o assunto da conversa:
— Novidades?
Jonathan se recuperou e, sem pensar duas vezes, aproveitou a pergunta:
— Ah, sim, claro! Sabe o velho Frank, do nível inferior?
— Aquele que coleciona ovos de fadas mordentes?
— É. Ele pode ser pirado, mas acabou confessando algo que, pelo que soube, tem total veracidade...
Estavam sozinhos, mas ainda assim Jonathan olhou para os lados, e, ao estar certo de que ninguém espiava, aproximou-se de sua companheira e respondeu adotando um tom fraco e misterioso:
— Um prisioneiro foi encontrado com uma varinha. Ninguém sabe de onde ele conseguiu, a tortura do capitão não funcionou e ele foi levado para um interrogatório em Londres. Dizem que ele pode estar recebendo ajuda de fora. Isso levanta questões interessantes... minhas favoritas são
como e
de quem.
O silêncio do corredor e a brisa passageira contribuíram para que o clima sombrio estivesse completo. Sarah permaneceu calada, refletindo a notícia que recebera.
— Ei, vocês dois! O intervalo acabou!
O chamado os assustou, que avistaram o portador da voz grave se afastar. Jonathan retomou a palavra:
— Te vejo às seis!
Dizendo isso, retirou-se apressado. Ao estar solitária, Sarah pôs sua mão direita no bolso interno de suas vestes e retirou sua varinha. Deu início a uma caminhada desatenta, seus olhos vidrados sugerindo que lembranças de temporadas difíceis passavam como um filme em sua mente.
"Acalme-se", dizia tentando convencer a si. "Eles estão presos, seria um ato insano se planejassem algo contra nós. Está tudo bem..."
Mudou de idéia sobre tudo estar bem, pois percebeu que andava por uma região suficientemente escura para exigir dela um simples feitiço:
—
Lumus!
Um foco de luz surgiu na ponta de seu instrumento mágico e revelou um rosto pálido encostado em grades negras. Seu dono tinha cabelos desleixados e sujos, rugas e muitas cicatrizes. Porém, o que promoveu o susto ao ápice foi a risada histérica do velho, que revelou uma voz rouca e falha:
— Que jovem medrosa! Por que está caminhando por lugares tão misteriosos, se é óbvio que não tem bravura?
Desviou sua varinha e devolveu o indivíduo para a escuridão, seguindo sua trajetória, nervosa, o passo acelerando.
— Eu teria cuidado com esse seu rostinho bonito — insinuou o detento. — Posso não ter êxito, minha idade me faz um inútil! Mas atropelarei aqueles que cruzarem meu caminho. Esteja de sobreaviso!
Sarah retornou para avaliar melhor as condições dele, uma repugnância estampada em suas feições de uma maneira que poucos imaginariam ver numa senhorita de tão pura natureza.
Abriu a boca e tornou a fechá-la, sem saber exatamente a razão. Resolveu ignorar as provocações, quando dedos se fecharam em torno de seu ombro direito, fazendo-a soltar um gemido apavorado.
— Dialogando com o Dashner, Sarah? Não diria que é sensato...
Aliviou-se ao ver que aquela mão em seu ombro pertencia a Raphael Morris, um simpático senhor que trabalhava ali havia anos. Dashner deleitava da surpresa que Sarah tivera, sua gargalhada ecoando pelo corredor. Ruborizada, Sarah resmungou um "vamos" e brevemente saíram de lá.
Sua mente estava repleta de perguntas, e não conseguindo organizar tudo numa ordem de importância, fez a primeira que escapou de seus lábios:
— Há quanto tempo o Sr. Dashner está aqui?
— Mais do que eu posso contar, minha querida.
Raphael era bondoso, mas tratava os presos como lixo, sendo surpreendido chamando estes de "escória" ou "ralé" frequentemente, então Sarah tomou cuidado ao medir as palavras:
— E o que ele fez?
O experiente guarda coçou o queixo e tirou sua dúvida com relutância:
— Era especialista em tortura. Estraçalhou famílias por ordens de Você-Sabe-Quem. Era um vingador, na verdade. Assassinava os filhos dos casais que importunavam a ele e seu mestre quando completavam sete anos.
Sarah estremeceu e não perguntou mais nada. As seis horas chegavam e eles se despediram, a ronda final seria realizada em instantes, como anunciara Jonathan.
5 de Agosto, 2017.Na pequena ilha do Mar do Norte, a prisão de Azkaban era iluminada por relâmpagos e pelas chamas à prova d'água que guardas improvisaram em tochas negras. A tempestade era acompanhada de forte ventania e ondas gigantescas golpeavam rochas de igual tamanho. Fazendo pouco caso de todo este estardalhaço natural, os prisioneiros já adormeceram, ou pelo menos era o que pensavam os rígidos guardas do local.
Sarah tentou, mas não esqueceu da cena que presenciou ontem, motivo pelo qual arranjou pretextos para não andar sozinha durante toda a noite. Neste momento, conversava com Jonathan e Raphael sobre quadribol, mesmo que estivesse mais ouvindo que participando do debate:
— Estou dizendo! Os Falmouth Falcons levarão a taça! O goleiro não é dos melhores, costuma deixar passar goles fáceis, mas eles têm um ataque e um apanhador perfeitos!
— Caro Jonathan, é provável que os Falcons não sobrevivam aos formidáveis batedores do Ballycastle Bats, que terão a honra de enfrentar na próxima rodada. Além disso, os Kenmare Kestrels também são concorrentes de peso, têm uma equipe completa. Tenho pena é do Chudley, prevejo uma nova lanterna para os coitados.
Jonathan riu e concordou.
— Se bem que pelo salário, adoraria defender as cores do Chudley.
Um grito de agonia cortou a paisagem, amedrontando os três, que pararam bruscamente e empunharam suas varinhas em reflexo. Ouviram outro grito, parecia vir da mesma pessoa, contudo, enfraquecido.
— O que foi isso? — Questionou uma Sarah abalada, relembrando seu encontro com o prisioneiro no dia anterior.
Num estrépito, grades de todas as celas foram arremessadas de dentro para fora. Seus residentes saíram vagarosamente, o triunfo marcado em seus sorrisos, que eram esquisitos, talvez por não praticarem esta ação há anos.
O trio engoliu em seco quando um deles fez sinal para que o cercassem. Obedientes, os recém-libertos envolveram seus antigos opressores. Riam da sorte que tinham, afinal, estavam em nove e seus adversários em um terço disto, sem mencionar que a sede de vingança pelos tempos em que foram humilhados por homens como Raphael Morris estava vindo à tona.
Rodeados, Jonathan e Raphael procuravam uma saída, mas Sarah se ocupava conferindo que os rebeldes estavam armados. O que deu as ordens iniciais aos seus cúmplices desdenhou:
— Você não me parece tão durão sem grades entre nós, Morris.
A veia na têmpora de Raphael latejava e seus lábios tremiam, mas ninguém arriscava se a causa seria raiva, frio ou medo. Sarah sabia que a terceira possibilidade era inválida. A personalidade de Raphael conservou um temperamentalismo jovial, e imediatamente respondeu, não se intimidando:
— Você me parece valentão agora que está em superioridade numérica, Cohen, seu cleptomaníaco de quinta...
O sorriso de Cohen amarelou. Sarah cutucou seu colega, tentando indicar que a hora não era boa para provocações, mas não tinha certeza se ele havia entendido o recado.
— Poupe-me! — Disse Cohen, estendendo sua mão livre. — Quero as varinhas!
Foi quando escutaram passos apertados no andar superior, que em seguida ocuparam as escadas. Os presentes prenderam a respiração, uma vez que não sabiam de que lado estavam os reforços que se encaminhavam para o palco da reviravolta. Então vultos desceram as escadas e marcharam cautelosamente. Uma das tochas iluminou o líder de um exército reduzido, Peter Underwood, chefe de Sarah e Jonathan. Os guardas encurralados trocaram olhares rápidos com seus salvadores e os criminosos entre si, aflitos.
— Ponham as varinhas no chão, bem como os seus itens mágicos! — Comandou Underwood, não perdendo seus oponentes de vista.
Cohen riu daquilo, acompanhado por uma parcela de seus comparsas. Divertido, desafiou:
— Acredita mesmo que faremos o que você manda?
— É só um procedimento padrão antes de mandá-los para a jaula... — Pela segunda vez, o prazer de Cohen sumiu. O comandante avançou e seus aliados o seguiram. — AGORA!
Raphael agarrou os braços de Sarah e Jonathan e os abaixou no exato momento em que feitiços eram pronunciados e clarões de diversas cores infestaram a área. Juntos, rastejaram para fora da confusão e entraram numa cela. Por não estarem na mira de encantamentos, levantaram-se.
Por mais que vissem as celas do lado de fora, elas nunca foram tão deprimentes.
O Profeta Diário tinha exemplares jogados pelo solo empoeirado, uma cama estava abaixo de uma janela minúscula com barras de metal e nada além.
— Sarah, é perigoso ficar aqui... — Começou Raphael, embargado. — Jonathan, escolte-a para algum lugar onde seja possível aparatar e certifique-se de que ela ficará em segurança!
— Mas... — Desnorteada, Sarah olhou de Jonathan para Raphael. Meneou a cabeça, demonstrando sua incredulidade. — Mas eu quero lutar! Quero ajudar!
Raphael insistiu, tentando ao máximo dissipar o ar soturno que adquirira.
— Haverá tempo para batalhas, acredite em mim! Mas deve aprender a recuar quando é necessário! Vocês são apenas novatos, não estão preparados para isso... estamos lidando com bruxos malignos hoje à noite, bruxos que não hesitam em matar!
Ele estava prestes a sucumbir, o que era raro. Possuía vários argumentos convincentes, mas a ansiedade de citá-los obstruiu a passagem de todos eles por sua garganta.
— Posso contar com você, Jonathan?
Jonathan também aparentava estar indignado por ser tachado de "novato" e ser repreendido daquele jeito, mas a opinião de Raphael era de imensa relevância para ele, o que o deixou duvidoso. Após desvendar o resultado de seus cálculos mentais, sua face foi clareada com a determinação munida de conformismo.
— Sempre.
Raphael ficou satisfeito, mas só atravessara metade do percurso. Voltou-se para Sarah, que se deu por vencida e disse, de má vontade:
— Claro...
— Agradeço, garotos. Vamos...
Raphael foi o primeiro a sair, tomando o rumo da direita. Sarah pensou em desobedecer e entrar na luta, mas Jonathan segurou sua mão firmemente e a puxou para a esquerda, onde teriam acesso às escadarias.
Enquanto desciam os primeiros degraus, Sarah olhou de relance para trás e enxergou Raphael duelando com uma dupla que visivelmente perdera as habilidades de combate com o decorrer do tempo. Antes que sua visão fosse bloqueada, viu uma moça tão jovem quanto ela indo auxiliar Raphael, e isso a fez concluir que fugir, mesmo que acatando ordens, não estava sendo uma atitude célebre.
Finalmente desceram os degraus, ainda escutando os estampidos ao longe e mais gritos de dor. Jonathan não deixou de apertar a mão de Sarah por alguma razão. Continuaram andando cuidadosamente, o que foi uma boa escolha, pois se estivessem dois passos adiantados, teriam explodido junto com a parede de formação rochosa. Atemorizados, retrocederam.
— Odeio o mar — Disse a voz fanhosa de uma mulher que agora adentrava o corredor. — Estamos atrasados?
— Não. Parece que está começando...
— Espero que tenham deixado um pouco para nós!
Sarah e Jonathan retrocediam sem alarde, os invasores ainda não perceberam a presença dos dois. Estavam chegando perto de um escritório, cuja porta estava escancarada. Porém, um passo em falso e pequenas ondas se formaram a partir do leve pisar de Jonathan numa poça, e a aguçada percepção dos opositores não fracassou.
—
Estupefaça! — Disseram três bruxos em conjunto, os três errando o encantamento por milímetros.
Os alvos empurraram a porta e penetraram uma sala espaçosa, cheia de pergaminhos, mesas e pastas, e se esconderam atrás de uma escrivaninha, procurando controlar a respiração agora arquejante. A mulher com aversão ao mar chutou a porta e seus cupinchas entraram em seu encalço. Um deles zombou, em falsete:
— O Ministério anda empregando funcionários escorregadios ultimamente, não? Lembro daqueles bobocas em Surrey. Três chefes de departamento. Nada difícil. Adorei torturá-los...
Foi o suficiente para Jonathan dobrar-se e se revelar, lançando um feitiço estuporante e acertando em cheio o zombeteiro. Os comparsas miraram na direção do guarda:
—
Rictusempra!
—
Protego!
—
Expelliarmus!
Apesar de repelir o primeiro golpe, fora desarmado em seguida, e embora Sarah tenha se levantado rapidamente, sofrera o mesmo ataque e perdera sua varinha. Era o fim.
— Últimas palavras...?
Sorridente, a rival ergueu sua varinha para o alto como um carrasco está prestes a decapitar um criminoso, a vitória cintilando em seus olhos frios.
— Não os meus garotos!
Raphael Morris segurava um pedregulho e o bateu com força na nuca daquela que em breve assassinaria os jovens, e com um reflexo invejável, apanhou a varinha da mesma e apontou para o outro criminoso, que era um tanto lerdo, estuporando-o.
Posteriormente, sem tempo para comemorações, sem tempo para parabenizar as habilidades de Raphael, sem tempo para suspirar em alívio, um clarão de luz verde inundou o o aposento. Raphael dobrava seus joelhos, seu olhar vidrado, uma agonia crescendo nos corações de seus pupilos. Quando o guerreiro caiu por completo, o prisioneiro Dashner estava lá, com um sorriso trêmulo. Não ousou ficar por mais tempo e fugiu, enquanto Sarah e Jonathan corriam em direção ao senhor que tanto respeitavam e amavam, o crepitar do fogo nos archotes e os soluços de Sarah trabalhando juntos no que seria o último som da noite.